A marcenaria de Beto Romero
No encontro entre a madeira e o olhar atento, nascem histórias. Gilberto Romero, o Beto, marceneiro e artesão, carrega nas mãos mais de três décadas de experiência, mas também a leveza de quem aprendeu a escutar o silêncio dos materiais.
Seu caminho começou em 1994, quando, ainda muito jovem, encontrou oportunidade em uma pequena marcenaria próxima de casa. Não era uma fábrica comum: ali, os móveis ganhavam vida através da marchetaria, uma técnica de incrustações delicadas, onde cada detalhe exige paciência, precisão e afeto. Foram cinco anos mergulhado nesse universo, aprendendo um ofício que, até então, parecia distante da própria história de sua família.
Apesar de não vir de uma linhagem de marceneiros (seu avô fora carpinteiro, mas ninguém mais se aventurara no ofício), Beto descobriu na madeira um chamado íntimo. “Foi um dom que encontrei em mim mesmo”, lembra. E talvez seja justamente por isso que sua relação com o material ganhou contornos tão pessoais: cada peça carrega não apenas técnica, mas emoção, intuição e uma leitura singular do que o tempo faz com a matéria.
Em 1999, diante da redução de trabalho, Beto buscou novos caminhos e encontrou, na madeira de demolição, um território fértil para criar. Foram anos explorando imperfeições, rachaduras e marcas deixadas por outras histórias. Afinal, a madeira fala e conta o que já foi e inspira o que ainda pode ser. Em 2003, investiu em suas próprias máquinas e montou um espaço de trabalho em casa, onde segue experimentando até hoje.
Foi a Semana Criativa de Tiradentes que reabriu a porta para um reencontro com suas origens. Ao participar de edições anteriores, Beto voltou à marchetaria, técnica que por anos ficou adormecida. “A Semana Criativa me trouxe de volta à minha trajetória inicial, que é a marchetaria”, revela. Nesse resgate, reencontrou não apenas a precisão dos desenhos, mas também a essência do que o moveu no início: a possibilidade de transformar matéria bruta em poesia palpável.
Hoje, suas criações transitam entre a arte e a funcionalidade. Cada móvel, cada detalhe, é resultado de um olhar que respeita o passado da madeira e, ao mesmo tempo, ousa recriá-lo. Gilberto não trabalha apenas com formas; ele trabalha com memórias. A madeira de demolição, com seus defeitos e cicatrizes, encontra na marchetaria um diálogo raro entre tradição e experimentação.
Na Semana Criativa de Tiradentes 2025, Beto apresenta um trabalho maduro, que carrega o tempo, o gesto e a história em cada peça. Ao visitar a exposição “Design Feito à Mão”, prepare-se para perceber o que vai além da superfície: a madeira respira, guarda lembranças e, nas mãos de quem a escuta, se transforma em arte.